Dahl com Espigos

Dahl com Espigos

Há pratos que chegam à mesa de mansinho, modestos quase até à pobreza, e que, todavia, acabam por nos prender com uma espécie de teimosia afetuosa. O dahl é assim. Um guisado antigo, nascido da necessidade e do engenho, feito de lentilhas, especiarias e vagar, que os indianos cozinham há séculos com aquela sabedoria profunda dos povos que aprenderam a fazer do pouco um conforto inteiro.

A palavra dahl, ou dal, significa simplesmente leguminosa em hindi, coisa seca e humilde, mas que, levada ao lume certo, ganha corpo, calor e sabor. E talvez seja precisamente isso que mais me agrada nele. Não pretende impressionar ninguém. Não vem coberto de artifícios modernos nem exige ingredientes de nomes impronunciáveis. É comida séria, funda, daquela que parece aconchegar primeiro o espírito e só depois o estômago.

Além disso, presta-se a todas as variações e caprichos da cozinha doméstica, que é afinal a única cozinha que verdadeiramente importa. Pode fazer-se com lentilhas vermelhas, rápidas e cremosas, quase desfeitas numa suavidade espessa. Com lentilhas verdes, mais robustas. Com ervilhas partidas, para um resultado mais rústico e campesino. E depois há os legumes que se lhe juntam conforme a estação, a horta ou simplesmente o humor de quem cozinha. Abóbora, cenoura, couve-flor, espinafres. Tudo ali encontra lugar.

Hoje, porém, fugi aos espinafres, que aparecem tantas vezes nestes preparos orientais, e resolvi meter ao tacho uns espigos dos nossos grelos, ainda tenros, com aquele amargo que sabe tão bem à nossa terra. E devo dizer que o resultado saiu muito mais português do que eu imaginava. O coco e o caril continuam lá, quentes e perfumados, mas os espigos puxam o prato para outro lado, como quem abre uma janela numa casa demasiado abafada.

Vai-se fazendo assim a minha cozinha. Uns dias mais aldeã, outros mais errante, outros ainda mais urbana,  mas sempre sem grande respeito pelas fronteiras. E neste tempo em que tantos ainda julgam que uma refeição sem carne ou peixe é uma espécie de penitência triste, continuo a descobrir, com algum divertimento, quantas coisas magníficas podem nascer apenas de legumes, especiarias e um lume paciente.

Espero que gostem.

Dahl com Espigos

4 pessoas • Dificuldade: fácil • Preparação: 15 min • Cozedura: 25 min

Ingredientes:

• 150 g de lentilhas vermelhas
• 2 colheres de sopa de azeite
• 1 cebola grande, picada finamente
• 1 dente de alho, esmagado
• 2 cenouras, cortadas em cubos pequenos
• 300 g de tomate pelado
• 150 ml de creme de coco
• 2 colheres de sopa de pasta de caril, ou mistura de especiarias indianas
• 580 ml de caldo de legumes quente
• 200 g de espigos
• Sal q.b.
• Pimenta-preta q.b.

Opcional para servir:

• Coentros frescos picados
• Malagueta fresca
• Sumo de lima
• Pão naan, ou pão torrado em fatias finas

Preparação:

  1. Leve ao lume uma panela funda com o azeite. Junte a cebola e deixe-a amolecer lentamente até ficar translúcida, sem pressas nem violências, que a boa cozinha prefere sempre a paciência ao incêndio.

  2. Acrescente o alho e a pasta de caril. Mexa durante cerca de 1 minuto, até que as especiarias libertem o perfume quente e fundo que há de sustentar o prato inteiro.

  3. Junte as lentilhas vermelhas e envolva-as bem no refogado, para que tomem gosto antes da cozedura.

  4. Adicione as cenouras e o tomate pelado esmagado. Regue com o caldo de legumes quente, mexa, tape a panela e deixe cozinhar em lume médio durante 10 minutos.

  5. Quando as lentilhas começarem a desfazer-se com a humildade própria das coisas bem cozidas, acrescente o creme de coco e os espigos.

  6. Continue a cozedura por mais 10 minutos, agora em lume brando, mexendo de vez em quando. O resultado deve ficar espesso, cremoso e quase untuoso. Se houver excesso de líquido, retire a tampa nos minutos finais.

  7. Tempere com sal e pimenta-preta a gosto. Prove antes de corrigir: a pasta de caril já traz sal em muitas versões comerciais, e cozinhar sem provar é uma das maneiras mais eficientes de estragar um prato competente.

  8. Sirva bem quente, com coentros frescos, umas gotas de lima e, para quem não receie o ardor, um pouco de malagueta fresca. Acompanhe com pão naan ou pão comum ligeiramente torrado.

Bom Apetite.

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