Tarte de Rosas Filo com Framboesas e Mirtilos
A doçaria grega tem qualquer coisa de antiga, como se cada sobremesa trouxesse consigo a memória do Mediterrâneo inteiro. Há nela mel, frutos secos, especiarias quentes, perfumes de canela e citrinos, mas sobretudo há massa filo, essa maravilha delicada e estaladiça que os gregos elevaram à categoria de património sentimental. Não são doces de grande aparato técnico nem de exuberâncias francesas. A sua nobreza vem antes da pureza dos ingredientes, da parcimónia sábia com que se combinam leite, ovos, frutos e massa fina até se alcançar qualquer coisa de profundamente reconfortante.
Tenho uma afeição antiga pela gastronomia grega, tanto pela salgada como pelo doce. Há nela uma franqueza mediterrânica que muito me agrada. Nada parece excessivo, nada procura impressionar à força. Tudo vive do equilíbrio, da luz, da generosidade da mesa partilhada. E a massa filo, essa rainha frágil e crocante, tornou-se uma das minhas eleitas. Gosto dela em receitas doces e salgadas, talvez porque consegue ser simultaneamente humilde e elegante, coisa rara em cozinha.
Na tradição grega, muitas tartes doces constroem-se em camadas finíssimas de massa filo, alternadas com cremes de leite, frutos ou frutos secos, tantas vezes acabadas com caldas aromáticas que perfumam a casa inteira. Há qualquer coisa de ritual neste gesto de enrugar folhas de massa, pincelá-las com manteiga e vê-las ganhar, no forno, aquela cor dourada de fim de tarde.
As origens destas tartes perdem-se na própria Antiguidade. Conta-se que na Grécia antiga eram preparadas como bolos sagrados oferecidos a Ártemis. Tinham forma redonda, evocando a Lua, e eram recheadas com cereais, mel e frutas. Gosto dessa ideia de continuidade invisível entre cozinhas separadas por séculos. A minha versão, com rosas de massa filo, creme de ovos e frutos vermelhos, talvez não seja ortodoxa, mas guarda ainda essa intenção antiga de celebrar a abundância simples.
É uma sobremesa despretensiosa, rápida de fazer, bela sem esforço e particularmente feliz para um almoço de domingo em família, quando a conversa se demora à mesa e ainda há sol nas janelas. A massa estala, o creme quase se desfaz e os frutos trazem acidez suficiente para impedir que o doce se torne pesado. Há receitas que servem apenas para alimentar. E há outras, como esta, que parecem feitas para prolongar a tarde.
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Tarte de Rosas Filo com Framboesas e Mirtilos
8 pessoas | Dificuldade: Média | Tempo de preparação: 35 minutos | Tempo de cozedura: 55 minutos
Ingredientes:
Para a massa
• 1 embalagem de massa filo
• 100 g de manteiga, derretida
Para o creme
• 300 ml de natas frescas
• 170 g de açúcar refinado
• 3 ovos
• 1 colher de chá de pasta de baunilha
• 1 pitada pequena de sal fino
• 125 g de framboesas
• 125 g de mirtilos
Para servir
• Açúcar em pó q.b.
Preparação:
Retire a massa filo do frigorífico cerca de 30 minutos antes de começar deixando-a atingir a temperatura ambiente ainda dentro da embalagem. A pressa aqui é inimiga da delicadeza: massa fria rasga-se como papel velho.
Pré-aqueça o forno a 180 °C, com ventilação.
Unte uma forma redonda de 26 cm com manteiga.
Estenda uma folha de massa filo sobre a bancada, com o lado mais comprido voltado para si. Pincele-a levemente com manteiga derretida. Sobreponha uma segunda folha e volte a pincelar.
Com as mãos, enrugue a massa em forma de leque, sem excessivo zelo geométrico; a graça desta tarte mora justamente nas imperfeições crocantes. Enrole depois essa tira sobre si mesma, formando uma espiral (rosa).
Coloque a espiral no centro da forma. Repita o processo com a restante massa filo, unindo cada nova tira à anterior até preencher toda a forma, como quem compõe um caracol dourado e paciente.
Regue a superfície com a manteiga restante e pincele ligeiramente as partes mais secas.
Leve ao forno durante cerca de 20 minutos, até a massa ficar dourada, leve e estaladiça. Retire e deixe arrefecer uns minutos.
Entretanto, prepare o creme: bata os ovos com as natas, a baunilha e o açúcar até obter uma mistura homogénea. Junte então uma pequena pitada de sal, não para salgar, mas para dar profundidade ao doce, coisa que muita pastelaria esquece em nome da doçura bruta.
Verta o creme lentamente sobre a massa filo já cozida, permitindo que escorra pelas cavidades e entre as espirais.
Distribua as framboesas e os mirtilos entre as dobras da massa e sobre o creme.
Leve novamente ao forno durante cerca de 35 minutos, até o creme estar quase firme e a superfície bem dourada.
Retire do forno e deixe repousar 10 minutos. Polvilhe com açúcar em pó antes de servir.
Sirva morna. Fria perde parte da alma; demasiado quente perde a compostura.
Bom Apetite.
