Trifle de Frutos Vermelhos
Hoje volto aos clássicos, e poucos haverá tão ingleses, tão antigos e tão estranhamente caseiros como o trifle. Há sobremesas que parecem nascer já completas, perfeitas e fechadas sobre si mesmas. O trifle não. O trifle foi-se fazendo devagar, ao longo de mais de quatrocentos anos, como certas casas antigas onde cada geração acrescenta uma sala, uma memória ou um excesso.
No final do século XVI era apenas uma mistura doce de natas aromatizadas. Só mais tarde, já pelo século XVIII, ganhou a forma que hoje lhe reconhecemos: camadas de pão de ló embebido em álcool, fruta, creme e natas, servidas em taças fundas de vidro, para que tudo se mostrasse sem vergonha, como convém às sobremesas que vivem tanto da abundância como da aparência. Tornou-se presença habitual nas mesas de festa inglesas, sobretudo no Natal, quando as famílias parecem precisar de sobremesas excessivas para suportarem melhor as longas convivências de Inverno.
A ironia está no nome. Trifle significa bagatela, coisa menor, quase sem importância. E, no entanto, há poucos doces capazes de ocupar uma mesa com tanta imponência. Nunca consegui olhar para um bom trifle como algo insignificante. Há nele uma certa alegria antiga, quase teatral, uma ideia generosa de sobremesa feita para ser partilhada à colher, sem grande cerimónia, mas com evidente prazer.
Talvez seja isso que mais me atrai neste género de doces. Não exigem obediência cega. Permitem imaginação, improviso, pequenos desvios pessoais. O pão de ló permanece, o álcool permanece, o creme permanece, mas entre essas fundações cabe quase tudo aquilo de que gostamos verdadeiramente. A fruta muda conforme a estação ou o capricho. O vinho pode ser Porto, xerez, licor ou outra indulgência qualquer escondida no armário. O creme tanto pode ser custard inglês como creme pasteleiro, mais espesso e mais voluptuoso.
E depois há ainda outra virtude, menos romântica, mas talvez mais útil: o trifle aceita sobras com uma dignidade rara. Bolo do dia anterior, fruta demasiado madura, natas esquecidas no frio. Tudo encontra lugar nesta sobremesa sem que pareça remendo. Pelo contrário. Muitas vezes, é precisamente dessa desordem que nasce a melhor versão.
Hoje faço a minha. Com creme pasteleiro, natas batidas e a liberdade tranquila de quem já percebeu que certas receitas clássicas sobrevivem não porque permanecem intactas, mas porque permitem ser habitadas por cada um de nós.
E para ficar ainda mais com ar de festa decorei o meu Trifle com flores comestíveis, das aromáticas vivas.
Espero que gostem.
Trifle de Frutos Vermelhos
6 pessoas • Dificuldade: média • Tempo de preparação: 45 minutos • Tempo de cozedura: 10 minutos
Ingredientes:
• 1 pão-de-ló ou bolo simples (fatiado) ou mesmo palitos de pastelaria
• 200 ml de vinho do Porto ou xerez doce
• 350 g de frutos vermelhos (morangos, framboesas, mirtilos, amoras)
• 2 colheres de sopa de açúcar
• 500 ml de leite gordo
• 1 vagem de baunilha (ou 1 colher de chá de extracto)
• 4 gemas de ovo
• 100 g de açúcar
• 40 g de amido de milho
• 200 ml de natas para bater
• 50 g de mascarpone
• 1 pitada de sal
• Amêndoas laminadas torradas q.b.
Preparação:
Corte o bolo em fatias e cubra o fundo de uma taça de vidro com metade. Regue com parte do vinho do Porto até ficar húmido, sem o encharcar.
Distribua uma camada de frutos vermelhos sobre o bolo.
Coloque o restante bolo por cima, formando uma segunda camada. Regue novamente com um pouco de vinho.
Aqueça o leite com a baunilha até quase ferver.
Numa tigela, bata as gemas com o açúcar, o amido de milho e a pitada de sal. Junte o leite quente em fio, mexendo sempre.
Leve de novo ao lume brando até engrossar num creme espesso e liso. Deixe arrefecer ligeiramente.
Verta o creme por cima da montagem de bolo e fruta, cobrindo tudo de forma uniforme. Volte a colocar mais fruta.
Bata as natas até começarem a ganhar corpo. Junta o mascarpone e continue a bater até obter um creme firme e estável. O mascarpone não é um capricho aqui — muda a estrutura, não apenas o sabor.
Espalhe a mistura de natas e mascarpone por cima da fruta, alisando ou criando volume, conforme preferir.
Finalize com amêndoas laminadas ou pistácios picados e mesmo com umas flores comestíveis. Leve ao frigorífico pelo menos 3 horas antes de servir.
Bom Apetite.
Nota: Pode fazer as camadas que quiser.
