Tártaro de Cenoura com Lima
Durante muito tempo, as entradas foram apenas isso: um limiar. Um pequeno gesto antes do essencial, um compasso de espera enquanto o prato principal se preparava para entrar em cena. Eram discretas, quase humildes, servidas para abrir o apetite e cumprir a liturgia da refeição. Mas o tempo, esse cozinheiro paciente, foi-lhes mudando o destino.
Hoje, as entradas cresceram em ambição e em voz. Tornaram-se o centro secreto da mesa, o momento onde se arrisca mais, onde se conversa mais, onde o paladar é despertado sem pressas. São pratos de partilha, de curiosidade e de surpresa, pequenas narrativas que anunciam a refeição, mas que, muitas vezes, já a justificam por si.
O tártaro nasce noutro mundo, noutra paisagem. A palavra traz consigo ecos de carne crua, de lâminas afiadas e de uma cozinha de precisão quase cerimonial. Originalmente associado à proteína, sobretudo à carne e ao peixe, o tártaro era um exercício de respeito pela matéria-prima: cortar fino, temperar com contenção, deixar que a textura falasse mais alto do que o fogo.
Mas também aqui o tempo fez o seu trabalho silencioso. À medida que a cozinha se foi abrindo ao vegetal, o tártaro libertou-se da carne e encontrou nos legumes um novo território de expressão. Cenouras, beterrabas, abacates, cogumelos: tudo o que é fresco, crocante e vivo passou a poder ser picado, temperado e servido cru, sem perda de nobreza, antes com um ganho inesperado de leveza.
Este tártaro de cenoura é filho dessa evolução. Tem a cor da terra recém-lavada e a frescura dos primeiros dias de Primavera. A lima traz-lhe claridade, quase uma luz ácida, os cominhos e os coentros sussurram histórias mais quentes, de viagens e mercados longínquos, as ervas frescas fecham o conjunto como um jardim cuidado ao entardecer.
Servido como entrada, pede tempo e atenção. Não antecede a refeição, inaugura-a. É um prato que não se impõe, mas que permanece. Como as boas conversas à mesa: simples na forma, profundas no gesto, e sempre um pouco mais memoráveis do que aquilo que veio depois.
Espero que gostem.Parte inferior do formulário
Tártaro de Cenoura com Lima
4 pessoas | Dificuldade: fácil | Preparação: 20 minutos | Cozedura: sem cozedura
Ingredientes:
• 4 cenouras médias, muito frescas
• Raspa e sumo de 1 a 2 limas (a gosto)
• 3 colheres de sopa de azeite virgem extra
• 1 colher de chá de mel
• ½ colher de chá de cominhos em pó (ou sementes ligeiramente esmagadas)
• 1 colher de chá de sementes de coentros, esmagadas
• 2 colheres de sopa de coentros frescos picados
• 1 colher de sopa de hortelã fresca picada
• Sal fino q.b.
• Pimenta preta moída na hora q.b.
Para finalizar (opcional):
• Sementes de sésamo tostadas
• Micro-ervas ou folhas pequenas de coentros
• Gomos de lima
Preparação:
Lave e descasque as cenouras. Rale-as muito finamente (idealmente em juliana fina), para obter uma textura leve e delicada.
Coloque a cenoura numa taça e junte a raspa, o sumo da lima, o azeite e o mel. Envolva suavemente.
Acrescente os cominhos, as sementes de coentros, as ervas picadas, sal e pimenta. Ajuste o equilíbrio entre acidez, doçura e especiaria.
Deixe repousar no frio cerca de 10 minutos, para que os sabores se encontrem sem perder frescura. Depois deixar a coar.
Para empratar, use um aro metálico: pressione ligeiramente a cenoura no centro do prato, criando uma forma limpa e elegante.
Retire o aro com cuidado e finalize com sementes de sésamo, micro-ervas e um gomo de lima ao lado.
Bom Apetite.
