Scones Tradicionais
Os scones nascem de um lugar humilde e silencioso, moldados pelo tempo e pela necessidade. A sua origem remonta à Escócia do início do século XVI, onde eram feitos com aveia, cozidos numa chapa sobre o fogo e cortados em triângulos, mais próximos de um pão rústico do que da delicadeza que hoje conhecemos. O próprio nome poderá vir da Stone of Scone, a antiga pedra da coroação dos reis escoceses, como se desde cedo o scone carregasse consigo uma dignidade discreta.
Com o passar dos séculos, a receita viajou para o sul. Em Inglaterra, a farinha de trigo substituiu a aveia, o forno tomou o lugar do fogo aberto e o scone tornou-se mais leve, mais alto, quase cerimonioso. Foi no século XIX, durante a era vitoriana, que encontrou o seu palco definitivo: o afternoon tea. A duquesa de Bedford, cansada da longa espera entre o almoço e o jantar, começou a pedir chá acompanhado de pequenos bolos — e o scone passou a ocupar o centro da mesa, ainda morno, pronto a ser aberto com as mãos.
É neste espírito de tradição e respeito pela técnica que hoje trago a receita de Paul Hollywood, que recupera o scone clássico e o apresenta com rigor e clareza, acompanhando cada gesto essencial para que resulte leve, direito e sem falhas.
No mundo britânico, comer scones não é apenas alimentar-se: é cumprir um ritual. Servem-se tradicionalmente simples, partidos — nunca cortados com faca — e cobertos com compota de morango e clotted cream. Mesmo aqui, a tradição divide reinos:
na Cornualha, primeiro a compota, depois o creme;
em Devon, o creme vem antes, como se fosse manteiga.
Não é apenas uma escolha. É identidade.
Os scones espalharam-se por todo o mundo britânico e além. Encontram-se em salões de chá londrinos, em cozinhas familiares, em hotéis coloniais da Austrália e da Nova Zelândia, onde surgem com natas e fruta fresca, e no Canadá, adaptados ao frio e à abundância. Mudam os sabores, mas o gesto mantém-se: pausa, chá quente, algo acabado de sair do forno.
Talvez seja isso que torna o scone intemporal. Não é extravagante, não é excessivo. Vive do equilíbrio, da mão leve, do respeito pela massa. Um scone bem feito não grita, ele eleva-se. E ao fazê-lo, carrega consigo séculos de história, encontros à mesa e o conforto simples de um ritual que pede apenas tempo, calor e atenção.
Espero que gostem.
SCONES TRADICIONAIS DE PAUL HOLLYWOOD
4–8 pessoas • Dificuldade: Média • Preparação: 15 min • Cozedura: 15–20 min
INGREDIENTES
• 500 g de farinha forte
• 5 colheres de chá de fermento em pó
• 80 g de açúcar fino
• 80 g de manteiga sem sal, fria e em cubos
• 2 ovos grandes
• 250 ml de leite
• 1 ovo extra batido com uma pitada de sal (para pincelar)
raspas de tangerina
PREPARAÇÃO
Aqueça o forno a 220 °C e forre um tabuleiro com papel vegetal.
Misture a farinha, o fermento e o açúcar numa tigela grande.
Junte a manteiga e esfregue com a ponta dos dedos até obter uma textura de areia grossa.
Bata ligeiramente os ovos com o leite e as raspas de tangerina e adicione aos ingredientes secos.
Misture suavemente até a massa começar a ligar.
Vire a massa para uma superfície enfarinhada e junte-a rapidamente, sem sovar.
Achate até cerca de 3–4 cm de espessura.
Corte os scones com um cortador redondo, pressionando sem rodar.
Coloque no tabuleiro e pincele apenas o topo com o ovo batido.
Leve ao forno por 15–20 minutos, até estarem dourados e bem crescidos.
Bom Apetite.
NOTAS — OS ENSINAMENTOS DE PAUL HOLLYWOOD
• O forno deve estar bem quente antes de os scones entrarem; o calor inicial é essencial para que cresçam direitos.
• A manteiga deve estar fria e ser trabalhada apenas com a ponta dos dedos, nunca amassada, para manter a leveza.
• Os ovos devem ser apenas ligeiramente batidos: não se procura ar, mas ligação.
• A massa deve ser misturada o mínimo possível; parar assim que se unir, evita scones duros.
• Nunca sovar a massa — os scones não são pão.
• A espessura ideal é de 3–4 cm, mais finos ficam secos, mais altos não cozem bem.
• O cortador deve ser pressionado a direito; rodar sela as laterais e impede o crescimento.
• O ovo para pincelar deve tocar apenas o topo; se escorrer pelos lados, trava a subida.
• Scones bem feitos crescem para cima, não para os lados, e ficam pálidos nas laterais.
• Devem ser comidos no próprio dia, ainda mornos, quando estão no auge da sua perfeição. Mas também ficam bons no outro dia torrados.
